Quando cheguei a Piedade dos Gerais, à noite, as
luzes todas acabaram. A explicação foi que a energia caíra em função do
“horário de pico”, quando todos ligam os chuveiros ao mesmo tempo, se
preparando para ir à missa na igreja da cidade, antes da mensagem da Mãe de
Jesus. Após a missa, no escuro, acompanhei as pessoas que se dirigiam ao Vale
da Imaculada Conceição para receber a mensagem das 20 horas. Um coro de vozes
infantis guiava nossos passos. A pequena capela estava repleta, iluminada por
velas que as crianças da comunidade seguravam. Seus cantos faziam tremer as
chamas. Quando Marilda entrou, trazendo consigo a energia elétrica que, como
num passe de mágica, acabara de voltar, o silêncio desceu sobre o recinto. Ela
se ajoelhou. Seus olhos procuraram um ponto, onde pareciam estar vendo alguém,
e assim ficaram, fixos e estáticos, como se ela estivesse hipnotizada. Seu
rosto se transformou. Lágrimas desciam dos seus olhos enquanto transmitia a
mensagem: “Grande felicidade estar entre vós nesta noite linda, este é um
momento de graça...” Após a mensagem, as pessoas vão para suas casas.
Marilda retorna sozinha. Não existe qualquer tipo de veneração ou tumulto, as
coisas acontecem como se tivessem de acontecer: naturalmente. Mas, para mim,
foram inesquecíveis momentos de graça e magia.
Extraído da Revista Destino
– Ano VII – No 118 – Junho de 1996
Reportagem de Fátima Nunes